Variações sobre o mesmo tema
Posso lhe falar sobre o que quiser, meu amigo,
mas posso lhe falar somente pela minha própria voz,
monotônica e redundante.
Se eu decidir lhe falar sobre Amor,
certamente usaria um tom mais baixo,
que faça jus à comoção que este me causa;
Vai ser um tom macio e contido,
a não ser quando o Amor em mim explode,
me dilacerando, que eu terei que gritar
aos quatro cantos: "EU AMO! EU AMO!"
até eu cansar de amar o meu Amor.
Se eu decidir lhe falar das mulheres que tive
vai ser com notas saudosas no ar,
mas se eu lhe falar da que terei
vai ser bem devagar,
para que eu possa degustá-la
com minhas palavras mais um pouco,
já que a hora tarda a chegar.
Se eu versionar sobre o tempo e o espaço,
entenda que minha voz, por conta própria,
insiste em questionar.
É uma voz chata, a minha, que busca entender
porquê certas melodias habitam nela
tão profundamente que
nada a impede de cantá-las.
Se eu lhe contar sobre o passado
será certamente rimado,
pra eu me sentir romantizado
como se estivesse revivendo,
reprotagonizando,
uma grande história.
E se eu lhe falar sobre o futuro
será tão exilerado
para que eu sinta que este chegará mais depressa,
e chegará! A contragosto.
Agora, se eu lhe falar sobre o presente,
sob um copo de cerveja,
vai ser olhando nos seus olhos,
para que lá eu ache as respostas
que minha voz insiste em invocar.
Sou limitado a certos assuntos,
confesso.
Mas destes lhe falarei
como Picasso falou do Azul,
Mozart falou de Deus,
e alguns olhares me falam sobre mim.
(A. Cortada)
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