Eu sou assim e o meu assim
é o abismo entre eu e você.
Eu sou assim e o meu assim
se interpõe de tal forma
que ficamo-nos nos olhando a distância,
e nos apegando a qualquer Amor
que preencha à lacuna do meu assim.
Eu sou assim e o meu assim
torna tudo o mesmo assim
até ficarmo-nos nus, amando à instância,
nos incendiando ao menor ardor
que combuste a impureza do meu assim.
Sou de tal disforma
que meus sentidos estão
na omissão do que eu não escrevi;
que minhas canções são
refração do que eu não cantei;
que meus versos vãos
conjugarão na prolixidade do que eu não senti.
Eu sou assim,
diferente de você:
Levianamente à mercê
de ser assim.
Eu sou assim, Lua,
enquanto você é Sol.
Eu sou assim, dor,
enquanto você é prazer;
Eu sou assim, cama,
enquanto você é lençol.
Eu sou assim, sentir
enquanto você é fazer.
Eu sou chorar
e você é rir;
Eu sou ar
e você é chama;
Eu tenho tesão
enquanto você Ama;
Eu tenho calor
enquanto a brisa é sua.
Eu sou assim: seu.
Mas o meu seu é tão meu
que olhamo-nos ao alento
desesperados
e amamo-nos ao momento -
tão separados -
pela imensidão
do meu assim
que afasta
você de mim.
Eu sou assim,
do meu jeito intrínseco de ser assim,
amparado somente pelo saber
que eu sou assim porquê sou seu
e só sou seu, porquê sou assim.
(A. Cortada)
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