Estudo poético sobre a sua indiferença

Sua indiferença me intriga.

Pois indifere o seu nariz da sua barriga,
assim como o covil, do coveiro
e o ardil do grosseiro?

Indifere a morte à vida?
O inteiro à fracção?
Indifere a dor ao gozo?
A labuta à diversão?

Indifere o Amor e a beleza?
Indifere a leveza do Ser?

Indifere a incongruência
à unicidade?
Indifere a diferença de idade?

Indifere eu a você?
Indifere a crueldade à mercê?

Indifere o tesão ao amor?
Indifere a fragância da cor?

Indifere o meu corpo ao seu
ao que eu te toco?
Indifere eu te tocar?

Indifere a minha boca à sua,
se indifere eu te beijar?

Indifere o Sol à Lua?
Indifere o surdo ao mudo?
Indifere o nada ao tudo?

O nada só é, porque o tudo há,
assim como a indiferença só há
porque há diferença.

Não há nada além do tudo.
Também não há (in)diferença.


(A. Cortada)