Desabafo

Eu já deveria, a uma hora dessas,
estar habituado com os teus açoites
e a tua pretensão hipócrita.

Mas não estou.

Pois, se queres que eu seja teu fantoche
ou teu bibelô inefado,
se queres me encarceirar
em tua mundaneidade implacável,
continue a despejar sobre mim
tuas intempéries
e teus julgamentos presunçosos.

Se meu jeito de ser te repudia
e queres me roubar, ignorante,
de minha liberdade,
escorraçar minha piedade,
privar-me do toque, do som, da cor,
abra o meu peito e estraçoe meu coração,
aperte-o até que se esvaia,
faça-me confessar meus pecados
afogue-me na dor.

Se queres me fazer chorar,
pois que seja impiedosamente,
e me estupre,
me curre
com tua falsa moral.

Me deixe empedernido em sangue,
raiva, ódio, rancor, tristeza.
Tire-me o amor,
afaste-me a beleza,
tome minha arte,
leve a minha inspiração,
me transforme em um burro de cargas,
faça-me de um objeto,
ponha-me em piloto automático...

Mas tenha certeza
de não deixar restar nenhum traço
de personalidade,
nenhum brilho
nenhum ardor.

Tenha certeza
de sacar-me todo o esplendor
e deixar-me imerso
no oceano da tua
amargura.

Me largue acabado,
aos cantos,
aos prantos,
esquecido.

Quem sabe com minhas lágrimas
possam perceber que ainda sou humano
como outro qualquer,
que eu sofro,
que eu grito,
que eu sonho
que eu sinto,
que eu morro mil vezes ao dia...
Que eu me perco,
que eu amo,
que eu me arrependo.

Ou me deixe ser,
ou leve em tua voracidade
toda a minha esperança.

Pois, se continuar assim,
dentro desta carcaça já não existe mais
felicidade.


(A. Cortada)